sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Capítulo 26

Isabel passou todo o seu final de semana empacotando coisas. Carina as ajudou bastante, assim, o trabalho foi mais rápido do que todos imaginavam. Quando Isabel chegou da escola, na segunda feira, os objetos da casa estavam praticamente todos empacotados.
_Vocês arrumaram rápido... -murmurou Isabel com desânimo
_A Carina é eficiente! -exclamou Elisa contente
_Estou vendo...
_Você fará mais uma prova amanhã, certo?
_É. É a última.
_Ótimo! Seu pai disse que a gente pode ir na quarta...
_Quarta?! Mas... já?
_E você queria esperar até quando, Isabel?
A garota soltou um suspiro.
_Eu só... bem... não é nada! Eu preciso ir à casa da Akira hoje.
_Tudo bem! O almoço está pronto, ok? -disse Elisa pegando sua bolsa. - Eu vou ao buffet acertar algumas coisas e mais tarde eu volto.
_Ok.
Após o almoço, Isabel dirigiu-se à casa de Akira,
_É a última vez... -murmurou a garota com lágrimas nos olhos.
Isabel apertou a campainha e Akira logo veio atender.
_Isabel! Que bom que você veio... Por que não entrou? Perdeu a chave?
_Não... -murmurou a garota. -Está aqui.
Isabel abriu a mão, mostrando as chaves.
_Eu apertei a campainha pra poder me lembrar desta cena... É a última vez que venho aqui...
_Mesmo?
_A gente vai se mudar na quarta feira...
Isabel lançou-se nos braços de Akira.
_Eu não quero ir! -exclamou a garota chorando
_Calma... Vamos entrar!
As duas foram para a sala.
_Não posso dizer que fico feliz pela sua mudança... vou sentir muito a sua falta.
_Eu também... -disse a garota enxugando as lágrimas
_Mas eu não sei o que Deus tem reservado pra você em São Paulo. Você, Isa, é uma garota muito preciosa... Acredito que o Senhor tem muito pra te oferecer lá.
_Eu estou tentando entender o porquê dEle estar fazendo isso justo agora que tudo está tão bem...
_Por isso mesmo. Tudo está bem. Você já fez o que tinha que fazer e... muito bem! Agora Deus tem planos pra você em outro lugar. Sei que não é fácil, mas uma coisa que você me ensinou é confiar em Deus a todo instante, porque Ele sabe o que faz!
_Preciso confiar mais nEle mesmo...
_Então, mude logo essa cara! Quero ver a garota alegre que eu conheço!
Isabel deu um sorriso.
_É isso aí!
_E... o Yuri?
_Ele foi ao supermercado pra mim... Ele mudou tanto, Isa... Nossas orações chegaram a Deus.
_Eu fico tão feliz por tudo isso...
_É tudo maravilhoso, não?
_Aham... e esse seu namoro, hein?
_Ah... -murmurou a mulher sorrindo apaixonada. -Eu estou tão feliz!
_Estou vendo. Me conta! Como foi que isso aconteceu?
_Bem... já faz um tempo que gosto do Dr. Humberto... ele é viúvo também, sabe? Mas eu não sabia se Deus realmente queria isso... Então, eu fiz um propósito! Se fosse mesmo a vontade dEle, o Dr. Humberto iria se converter... e ele se converteu!
_Uau!
_Faz duas semanas, eu acho. Nesta última viagem que fizemos, após um jantar de negócios, ele me disse que estava gostando muito de mim e me pediu em namoro!
_E, então, você aceitou!
_Não... eu disse que ia pensar primeiro. Eu orei muito durante a noite e o Senhor me disse que a hora de sofrer havia acabado e agora estava preparando bençãos pra mim... Eu senti realmente que era a hora de me desprender do meu marido falecido e viver uma nova história... Aí eu aceitei!
_Agora está tudo entrando nos eixos...
_Graças a Deus por isso! -Akira pegou as mãos de Isabel. -Eu quero que Deus te abençoe muito porque foi através de você que conheci as maravilhas do Senhor. Não sei o que seria de mim sem Ele, hoje em dia.
_E eu agradeço a Deus por ter conhecido você e por ter visto tudo o que Ele fez em sua vida...
E as duas se abraçaram.
Durante umas duas horas, Akira e Isabel ficaram conversando sobre o que tinha acontecido durante aquele ano e como Deus havia sido maravilhoso.
_Akira, eu... eu preciso ir agora.
_Espere um minuto, então.
A mulher foi ao escritório (que agora estava com a porta bem aberta) e voltou com um envelope em suas mãos.
_O pagamento pelo seu trabalho...
_Obrigada.
Isabel abriu o envelope e havia um cheque de dois mil reais.
_Mas... isso é quase o triplo do que eu ganho!
_Acho que nem todo o dinheiro desse mundo poderia pagar tudo o que você fez aqui, não só na minha casa, mas em minha vida!
A garota abraçou Akira novamente.
_Obrigada!
As duas foram até o portão.
_Que você seja muito feliz nesta nova etapa da sua vida! -desejou Akira
_Desejo o mesmo pra você!
Akira deu um estalado beijo na bochecha da garota e Isabel foi embora.
"Como é bom ver as maravilhas que o Senhor faz!"
No outro dia, após a prova, Isabel foi a biblioteca devolver os livros que havia pego para estudar.
_Olá, Isabel! -exclamou a bibliotecária. -Foi bem na prova?
_Espero que sim... -murmurou a garota desanimada
Sua cabeça estava tão centrada na mudança que acreditava sua nota não ser tão boa.
_Eu vou pegar esses aqui! -disse uma pessoa colocando os livros no balcão.
Isabel olhou para o lado e sorriu. Era Yuri.
_Só podia te encontrar por aqui mesmo! -exclamou o garoto
_Não posso dizer o mesmo sobre você!
_Por algum motivo, tive uma chance de me recuperar. Se eu passar em algumas provas, talvez não precise fazer o 3º ano pela 3ª vez.
_3ª vez?!
_É... foi vacilo! Poderia estar na faculdade agora...
_Verdade!
_Você vai fazer alguma coisa agora?
_Não...
_Gostaria de me acompanhar no café?
Isabel sorriu. Os dois foram para o refeitório e Yuri pediu um super café da manhã para os dois.
_Não sei se vou conseguir comer tudo isso! -exclamou Isabel
_Não tem problema. Coma o que quiser, é tudo seu!
_Obrigada. -murmurou a garota acanhada. -Bom... é... como você está? E aquele seu "probleminha"?
_Uns policiais foram em casa ontem.
_E...?
_Por um milagre, porque só pode ter sido por isso mesmo, eles me pediram apenas a descrição dos agressores e, após o retratato falado, me disseram que haviam prendido essas pessoas. Eu fui até a delegacia e os reconheci. Não precisei fazer um depoimento, o que é completamente fora do normal.
_Foi Deus! -disse Isabel convicta
_Sabe... acho que foi mesmo!
O garoto pegou sua mochila, pegou um livro de dentro desta e o colocou em cima da mesa.
_Reconhece isso?
Isabel sorriu. Era sua antiga bíblia, que havia dado a Akira há alguns meses.
_Era minha bíblia... -disse a garota admirada
_Eu a encontrei no escritório da minha mãe e fiquei curioso para ler. É um livro interessante!
_Não é apenas um livro, é a palavra de Deus!
_De alguma forma, toda vez que abro essa bíblia, sinto que fala diretamente comigo. Nunca senti algo assim!
_O que você leu?
_Eu deixei marcado...
Yuri abriu a bíblia e mostrou a Isabel.
_Lucas 18:18... O jovem rico...
_Não entendi muito, mas senti que era pra mim isso!
_Yuri... o que você acha que é preciso para ser feliz?
_Eu... não sei.
_Você tem visto sua mãe? Acha que ela está feliz?
_Sim... está até namorando!
_Ela já te contou?
_Sim.
_E o que você achou?
_Bem... já era a hora dela dar uma chance pra ela mesma. Afinal, meu pai já se foi e... ela merece ser feliz!
_E quanto a você? Não acha que deveria dar uma chance para sua vida?
_E será que eu mereço?
_Yuri... nós oramos muito por você e Deus nos ouviu. Você está aqui! Aquele dia, quando aqueles homens te agrediram, eu fui até onde você estava porque Deus me falou para ir até lá e aqueles homens fugiram, sem motivo algum. Eu não acredito que tudo isso tenha acontecido por acaso...
_Como assim?
_Deus tem algo para sua vida! -as palavras escaparam da boca de Isabel
_E o que isso quer dizer?
_Que Deus tem algo pra te oferecer que é muito maior do que você pode imaginar! Este jovem rico, que você leu aí na bíblia, seguia todos os mandamentos que Deus estabeleceu para os homens, mas algo o impediu de seguir a Jesus de verdade... sua riqueza! Ser rico não é errado, mas o dinheiro ocupava um lugar muito grande em seu coração e, assim, ele não pôde seguir a Jesus porque seu coração já estava "lotado". O que Deus quer de nós é que não nos importemos com as coisas deste mundo, pois quando confiamos nossa vida a Deus, Ele faz tudo por nós. Ele quer que você siga a Ele, Yuri... de todo o seu coração!
_Isso é loucura!
_Você não acredita que Deus está falando com você?
_Não sei... isso está muito confuso!
_Tudo isso que Deus fez por você nesses últimos dias é só o começo daquilo que Ele tem preparado pra você!
_E por que Ele faria isso por mim?
_Porque Ele te ama!
_E como você sabe disso?
_A bíblia diz: "Porque Deus amou o mundo de tal maneira...", ou seja, se você está neste mundo, então Ele te ama!
_E onde está escrito isso?
Isabel pegou a bíblia e abriu em João 3:16. O garoto leu este versículo e os outros que se seguiram, até o 21.
_É inacreditável como parece que tudo se refere a mim!
_Você ainda acha que é loucura?
_Eu não sei...
_Yuri... Jesus veio a este mundo para salvar pessoas como você. Ele sabia que muitas pessoas viveriam uma vida de miséria e de horror, mas ele veio para mudar essas vidas, dar uma nova chance... Você pode ter uma nova vida. Basta querer...
O garoto ficou pensativo.
_Como eu faço isso? -murmurou ele confuso
_Você quer deixar Ele fazer parte da sua vida?
Yuri fez que sim com a cabeça.
_Então... feche seus olhos e ore assim comigo...
Yuri fechou os olhos e começou a repetir as palavras de Isa.
_Senhor Jesus, tenho vivido uma vida que não está de acordo com o que queres pra mim. Eu quero ter uma nova vida! Peço-te agora que entres em meu coração e mude a minha história. Quero fazer parte do Teu Reino no céu... perdoa os meus pecados e me aceita como filho. Obrigado,Jesus.
"Jesus isso é maravilhoso!"
_Estou sentindo que fiz a coisa certa mas... o que eu faço agora?
_Procure frequentar uma igreja... Lá você encontrará pessoas que te ajudarão a caminhar com Cristo.
Isabel mal podia acreditar no que havia acontecido...Yuri agora era crente!
_Que bom que pude ver esse milagre antes de ir embora...
_E... quando você vai?
_Amanhã...
_Amanhã?! -espantou-se o garoto. -Tão rápido?
_É...
_Então, você nem vai participar da formatura, não é?
_Eu nem ia mesmo. Quando começaram a arrecadar o dinheiro, minha família estava passando por dificuldades e não dava pra pagar. Acho que não era mesmo pra eu participar...
Yuri parecia pensativo.
_Eu preciso ir agora! -exclamou ele de repente
_Tá.
Yuri guardou a bíblia em sua mochila.
_Vou ler constantemente agora!
_E pode ter certeza que vai mudar a sua vida! -disse Isabel sorrindo
Yuri deu um sorriso e foi em embora. Alguns minutos depois, Isabel também retirou-se.
_Eu não queria ter que ir embora justo agora! -resmungou Isabel, após contar o que havia acontecido para a mãe.
_Isabel, não quero mais ouvir isso! -exclamou Elisa enquanto lacrava uma caixa
_Mas é que... quanto tempo não esperamos pra que isso acontecesse? É maravilhoso!
_Eu entendo, Isa! Mas... as coisas tem que ser assim!
_Isso é injusto!
O telefone da casa toca.
_Atende lá porque eu estou ocupada!
Isabel correu até a sala.
_Alô?
_Isabel?
_Sim...
_É a Akira!
_Oi... Algum problema?
_Não, não... Eu só liguei pra te fazer um convite!
_Hum... que seria... ?
_Gostaria que você fosse jantar com a g... é... comigo! Comigo... hoje a noite no... no restaurante Merveille.
_Merveille?! -surpreendeu-se a garota
_Isso! Você aceita?
_Sim...
_Esteja pronta as 7, então!
_Ok.
Isabel estranhou tudo aquilo, mas estava feliz. Ainda mais porque estaria no melhor e mais luxuoso restaurante da cidade.
_Quem era? -perguntou Elisa
_A Akira. Ela me convidou para jantar no Merveille.
_Uau!
_Espere! Meus vestidos estão todos empacotados!
Elisa olhou para as caixas ao seu redor.
_E eu nem tenho idéia de qual caixa estão os vestidos...
_E agora? Eu não posso vestir qualquer coisa, mãe!
A campainha toca.
_Pode ir!
Isabel foi até o portão, onde estava uma loirinha, baixinha, que Isabel conhecia muito bem.
_Juli!
_Não sei se devo deixar que você me chame assim! -resmungou a garota, enquanto Isabel abria o portão
_Por que? O que eu fiz agora?
_O que você fez? Você ainda me pergunta o que você fez?!
_Juli... você está me assustando.
As duas entraram e sentaram-se no sofá da sala.
_Eu simplesmente estava na minha busca diária, por um emprego decente; o que realmente tem se tornado uma tarefa mais difícil do que eu imaginava; quando encontrei a Carina. Então, ela me contou que estava ajudando vocês a empacotarem as coisas porque vocês vão se mudar... AMANHÃ!
Isabel sorriu aliviada.
_Como você se esquece de me avisar uma coisa dessas, Isabel Marques?!
_Me desculpe, Ju... Mas aconteceram tantas coisas...
_Espero que sejam suficientemente importantes pra você se esquecer assim de mim!
Isabel contou a amiga sobre o namoro de Akira e sobre a "decisão" de Yuri.
_Eu não acredito! O Yuri é crente agora?
_Pois é...
_Que maravilha, Isa!
_Está vendo só? Não foi por coisinhas banais que eu esqueci de te avisar...
_Tudo bem. Eu te perdoo.
_E eu estou com mais um probleminha agora...
_O que aconteceu?
_A Akira me convidou pra jantar no Merveille hoje e...
_Merveille?!
_É mas... todos os meus vestidos estão em caixas lacradas...
_Eu poderia te emprestar um...
_É! -exclamou Isabel aprovando a idéia
_Não!
_Não?! Por que não?
_Porque os meus vestidos já estão velhos e você deve usar uma coisa nova hoje... uma coisa especial!
_Hum... vamos ao shopping comigo, então?
_Tá. Posso procurar emprego amanhã! Já cansei por hoje!
Isabel avisou a sua mãe sobre sua saída e as duas amigas foram ao shopping, que não era tão longe dali.
As duas visitaram várias lojas e Isabel experimentou vários vestidos.
_Ah... eu estou quase desistindo. Parece que não tem nada aqui que combine comigo!
_Esse shopping está decaindo... -murmurou Juliana
A garota estava falando e parou de repente.
_O que foi, Juli?
_Veja só! -disse ela apontando para uma loja de roupas para grávidas e bebês. -Vamos até lá, só pra dar uma olhadinha?
Isabel sorriu.
_Tudo bem.
As duas foram até a loja e exploraram cada acessório. Os olhos de Juliana brilhavam ao ver cada roupinha, cada sapatinho...
"É tão bom ver que agora ela quer esse bebê..."
_Olha só, Isa... -murmurou a garota mostrando um macacãozinho rosa. -Se for menina, isso aqui ficaria lindo, você não acha?
_Sim... muito lindo!
_Vocês querem ajuda? -perguntou uma senhora, de aparentemente uns 60 anos, se aproximando
_Não... estamos só olhando! -disse Juliana se aproximando mais de Isabel. -Nunca pensei que diria isso na minha vida!
_Sabe, eu vou comprar isso pra você! Aliás, pro meu sobrinho...
_Mas... a gente nem sabe se é menina!
_Mas eu quero dar um presente! Será o primeiro, não?
_É.
As duas foram até o balcão e Isabel entregou àquela senhora um cartão de crédito.
_Obrigada, Isa.
_Eu faço com prazer!
Foi então que Isabel notou, ao lado do caixa, uma plaquinha que dizia : "Procura-se vendedora".
_Juliana! -exclamou a garota. -Veja!
Juliana olhou, mas não mostrou-se entusiasmada.
_Isa... é quase impossível eu conseguir!
_Mas você nem tentou! Você poderia se dar bem trabalhando aqui!
_Você está procurando emprego? -perguntou a senhora
_Estou... -disse Juliana envergonhada. -Mas... eu nem tenho experiência como vendedora.
_Como vendedora, eu não sei, mas com o propósito de fazer alguém comprar alguma coisa... Ah, nisso você é craque!
_Do que você está falando, Isa?
_Quantas vezes eu já não comprei alguma coisa, que eu nem precisava, porque você me persuadia de um jeito que... eu acabava levando!
_Você acha que eu sou boa nisso, então?
_Você poderia tentar... -disse a senhora. -Eu preciso muito de alguém por aqui! A menina que trabalhava comigo teve de se mudar e... bom, você gostaria de trabalhar aqui?
Juliana surpreendeu-se. Não havia procurado, mas acabava de encontrar um emprego.
_Sim! -exclamou ela. -Eu preciso muito! Quando posso começar?
_Se você quiser... agora mesmo!
Juliana olhou para Isabel preocupada. As duas ainda não haviam escolhido um vestido.
_Não se preocupe, Juli. Isso é mais importante que um vestido!
Juliana abraçou a amiga.
_Obrigada, Isa!
Isabel saiu daquela loja e, na loja a frente daquela, uma mulher acabava de vestir o manequim com um vestido que chamou a atenção de Isabel. Sem hesitar, Isabel foi até a loja e pediu para experimentar aquele vestido. Serviu perfeitamente.
O vestido era lilás e em degradê. Havia um bojo de cor escura e pedrinhas brilhantes separavam este bojo do resto do vestido, que era mais claro e todo plissado verticalmente.
Às 7 horas, Isabel estava pronta.
_Está linda! -exclamou a mãe da garota orgulhosa
_Mãe... você é suspeita pra me falar isso!
_Só estou dizendo a verdade.
A campainha toca.
_Acho que é a Akira. Estou bem mesmo?
_Você disse que a minha opinião não conta, então...
Isabel sorriu. Deu um beijo em sua mãe e saiu correndo para atender ao chamado. Quando abriu a porta, teve a surpresa. Não era Akira que a esperava, mas Yuri. Isabel andava lentamente em direção ao portão, enquanto Yuri estava encostado no carro, observando, completamente encantado. Ele estava vestido com um terno preto de risca de giz, deixando- o mais charmoso do que já costumava ser. A admiração era recíproca.
_Oi... -murmurou Isabel
Yuri sorriu e tirando o braço de trás de suas costas, mostrou-lhe uma rosa branca.
_É pra você.
Isabel pegou a rosa, completamente boba pelo que estava acontecendo. Yuri abriu a porta do passageiro e a garota entrou no carro.
_Eu pensei que a Akira viria me buscar...
_Ela foi com o Dr. Humberto! -explicou o garoto
_Ah...
E até chegarem ao restaurante, essas foram as únicas palavras pronunciadas até então.
_Esse lugar é um sonho! -exclamou Isabel, passando o braço em volta do braço que Yuri oferecia.
_Isso porque você ainda não viu nada.
Os dois entraram no restaurante e Yuri a conduziu para a mesa em que se encontravam Akira e Humberto.
_Ah... até que enfim chegaram! -exclamou o homem que estava ao lado de Akira
Era alto, moreno e parecia estar na faixa dos quarenta, mas muito "bem conservado".
_Muito prazer! -disse ele estendendo a mão para Isabel. -Ouvi falar muito de você!
_Espero que bem... -disse a garota
_Muito bem! -acrescentou o homem
Yuri afastou a cadeira para Isabel se sentar e a tratou como um completo cavalheiro faria, durante toda aquela noite.
_Está gostando, Isa? -perguntou Akira, depois de servirem a sobremesa
_Sim... Este lugar é lindo, a comida é maravilhosa... Nem sei como te agradecer!
Akira olhou para Yuri e sorriu.
_Na verdade... esse jantar não foi idéia minha!
Isabel sentiu seu estômago queimar.
"Senhor... se isso for um sonho, eu não quero mais acordar!"
No restaurante, havia um espaço para os casais dançarem, ao som da música que era feita ao vivo.
_Essa música é linda! -comentou Akira
_Você quer dançar? -perguntou Humberto
_Claro.
Os dois se levantaram e se afastaram da mesa. Isabel começou a sentir suas mãos suarem. Só estavam ela e ELE naquela mesa. O nervoso invadiu todo o seu corpo.
_Você realmente gostou de tudo isso? -perguntou Yuri
_Sim. -respondeu ela rapidamente, sem olhar para o garoto
_Você... você não gostaria de dançar comigo?
Isabel olhou rapidamente para Yuri.
_Eu... eu acho que não sei dançar.
_Você acha? Ou você sabe ou não sabe.
Isabel sorriu. Dançar uma música lenta era fácil, quando seu corpo todo não estava tremendo descontroladamente.
_Tudo bem. -disse a garota hesitante
"Isso não vai dar certo!"
Yuri se levantou e estendeu sua mão para Isa. Então, conduziu-a para o lugar reservado as danças. No momento em que o abraçou, Isabel começou a se acalmar. Sentia-se tão segura ali, tão perto dele. Foi um momento mágico. Seus pensamentos foram longe, até que uma chuva de aplausos a despertou para o mundo real. A música havia acabado.
Os dois se afastaram para aplaudir, quando Isabel virou-se para olhar os cantores, viu um garçom vindo em sua direção. Em sua mente veio a lembrança de uma certa festa, em que tudo havia dado errado. O garçom parecia vir em sua direção, como que para atacá-la, iria despejar todo o conteúdo em seu vestido novamente...
_Isabel! -exclamou Yuri se posicionando na frente da garota. -Você está bem?
Isabel olhou para os lados. Não havia garçom. Era sua imaginação que a fazia parecer uma idiota na frente de uma pessoa tão especial.
_Não é nada... eu só... é... nada!
_Você não gostaria de tomar um ar? Você está pálida!
_Está bem...
Yuri estendeu seu braço para Isabel e, então, conduziu-a para fora do restaurante.
_Você parecia assustada lá dentro!
_Eu estava lembrando de uma coisa que aconteceu... nem sei porque fui lembrar disso agora! Estava tudo tão perfeito...
_Ainda está perfeito, Isabel! Esqueça de tudo agora... Pense apenas no que você está vivendo neste momento.
Isabel sorriu.
"Se pudesse, viveria esse momento pra sempre!"
A garota olhou para o céu, que estava mais lindo que nunca. Negro, todo pontilhado de estrelas.
_Acho que não vejo um céu assim há tempos... É lindo...
_Realmente... -murmurou Yuri
Isabel continuou olhando para o céu por mais alguns instantes, mas teve a sensação de estar sendo observada. Ao olhar para o lado, Yuri a admirava, como um artista admira sua obra prima após terminá-la.
_Você está linda esta noite. -disse ele finalmente
_Obr... brigada! gaguejou ela
_Ah... vocês estavam aí! -exclamou Akira, saindo do restaurante com Humberto. -Nós já vamos, tá?
_Que horas são? -perguntou Isael
_11:30.
_Puxa! -exclamou a garota admirada
_Você... quer ir embora? -perguntou Yuri
_Querer eu não quero, mas... tenho!
_Bom, Isabel, -disse Akira. - agora a despedida é pra valer mesmo!
A mulher abraçou Isabel.
_Espero que o Senhor te abençoe, cada dia mais, infinitamente... porque você merece!
_Obrigada!
Humberto cumprimentou-a e os dois saíram. Isabel e Yuri entraram no restaurante, para Isabel pegar sua bolsa e, então, foram para casa da garota.
_Não pensei que isso fosse tão difícil! -disse Yuri ao estacionar o carro em frente a casa de Isabel. _Isso o que?
_Me despedir de você. Há alguns meses tudo o que eu queria era que você fosse embora da minha casa, hoje eu não quero que você saia da minha vida...
Isabel arregalou os olhos, espantada.
_Eu só espero que você seja muito feliz mesmo...
_Obrigada!
Yuri desceu do carro e abriu a porta para Isabel sair também.
_Espero que você tenha gostado de tudo...
_Eu adorei!
Yuri estava parado bem a frente de Isabel. Seus olhos estavam fixos nos olhos de Isabel, que teimavam em olhar para tudo, menos para Yuri.
_Essa foi a melhor noite da minha vida, porque estive com alguém que realmente fez a diferença em minha vida!
Isabel, finalmente, olhou para o garoto e sorriu. Yuri, então, se aproximou ainda mais da garota. Isabel sabia o que estava prestes a acontecer, mas não tinha certeza de que queria que aquilo acontecesse.
"E se eu não souber? Ah, meu Deus! Ele está vindo..."
O coração batia tão forte que Isabel acreditava que a vizinhança toda poderia escutá-lo. Yuri aproximou-se ainda mais, até que os lábios se encostaram um no outro, dando-lhe um beijo leve. Depois, beijou-a com mais intensidade, fazendo com que a garota sentisse se desfalecendo... Era o momento esperado por tanto tempo e, era perfeito!
_Não esqueça de mim lá em São Paulo, viu?
_Não se preocupe!
Yuri sorriu um pouco triste e entrou no carro.
"Depois dessa, impossível esquecer cada detalhe do teu ser!"

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Capítulo 25

Logo que chegaram a casa de Isabel, a garota correu para dar uma ajeitada no ex quarto da avó. Em alguns minutos, Yuri estava instalado em seu quarto provisório. A família toda se empenhou para ajudar Yuri, mas, claro, Isabel cuidava do garoto mais que todos. Yuri até dissera que ficaria mal acostumado com tanta "mordomia" e Isabel não media esforços para que o garoto se sentisse o mais confortável possível em sua casa.
Dois dias de cuidado se passaram, chegou o sábado.
Isabel estava na cozinha, estudando e fazendo alguns exercícios, quando foi surpreendida pelo garoto.
_Bom dia! -exclamou ele
_Yuri?! -gritou a garota, numa mistura de susto e espanto. - O que você está fazendo aqui e... em pé?
Isabel se levantou e foi empurrando Yuri de leve.
_Você tem que descansar!
_Mas eu tô ótimo! Você não está vendo?
Isabel o encarou por alguns segundos e desviou o olhar.
_Bom... se você diz! Você quer alguma coisa? A gente já tomou café...
_Eu não sei... O que temos hoje?
_Minha mãe fez um bolo de cenoura que está uma delícia!
_Ah... com certeza eu quero! -disse Yuri se sentando a mesa. -O que é isso?
A mesa da cozinha estava repleta de livros e materias escolares.
_Livros! -respondeu a garota trazendo alguns pedaços de bolo para Yuri.
_Você gosta mesmo de estudar, hein?
_Eu não posso me sair mal nessas últimas provas e... tenho que estudar pro vestibular.
_Vestibular?! Que legal! Você vai prestar pra que curso?
_Esse é o problema. Eu ainda não sei.
_Podia tentar ser enfermeira... -disse o garoto com ternura.
Isabel sorriu envergonhada.
_Acho que não sirvo pra isso não. Pra ser enfermeira, a gente precisa gostar muito das pessoas! Não que eu não goste de pessoas, mas não sei se trataria a todos do mesmo jeito, sabe?
_Então... o que pretende?
_Não consigo decidir...
_O que tem em mente?
_Nada. Todos os cursos me deixam confusa!
_Bom... você já pode eliminar enfermagem. Isso você já sabe que não vai fazer.
_É... verdade.
_Você poderia eliminar outras que você também sabe que não fará. Eu posso te ajudar! Onde está a lista dos cursos?
Isabel procurou embaixo de seus livros e entregou um panfleto universitário a Yuri.
_São todos esses aí!
Yuri olhou a capa do panfleto admirado.
_Essa universidade fica em São Paulo!
_É. -disse Isabel com naturalidade.
_Você vai estudar em São Paulo! -disse o garoto enfatizando o problema. -Nenhuma faculdade daqui te agradou?
_Na verdade... foi escolha dos meus pais. E... devido as circunstâncias também...
_Que circunstâncias? -perguntou Yuri com interesse.
_A empresa do meu pai o transferiu pra São Paulo e... nós vamos morar lá.
_O que?! -surpreendeu-se ele.
_Meus pais estão em São Paulo agora, vendo a casa que provavelmente será nossa.
_Você vai se mudar... -murmurou Yuri, parecendo inconformado.
_É... vou.
_Puxa! -disse o garoto dando um suspiro. -Que pena... quer dizer, é bom pra você, não é? Lá podem surgir mais oportunidades, mas... você estará longe.
Isabel sentiu um frio no estômago. Tinha mesmo escutado aquilo? Era Yuri mesmo a pessoa que estava a sua frente ou seria um sonho, uma alucinação? Todos os pensamentos de Isabel foram interrompidos pelo toque do telefone.
_Eu... eu vou atender! -gaguejou ela se levantando.
_Alô, Isabel?
_Sim...
_É a Akira...
_Akira! -exclamou a garota contente.
Ao ouvir o grito, Yuri correu para a sala, ansioso para falar com a mãe.
_O que aconteceu com você? Te liguei várias vezes!
_Eu fui viajar e esqueci o celular em casa. Cheguei agorinha e vi que você ligou inúmeras vezes...
_Sim! Eu tenho uma ótima notícia pra você que você não vai acreditar!
_Eu também tenho uma que...
_Não, Akira! Depois você fala! O que eu tenho é... inacreditável!
_Nossa! Me fale, então!
_Não... melhor você ouvir...
Isabel entregou o telefone para Yuri e sorriu.
_Ma... mãe?
Akira emudeceu.
_Mãe? Você está aí? -perguntou o garoto preocupado. -Está me escutando?
_Yuri... -murmurou a mulher. -Ah, meu Deus! Tu és maravilhoso mesmo!
Yuri olhou para Isabel e sorriu.
_Como você está, meu filho? Você está bem?
_Estou ótimo, mãe...
_Eu não acredito! Eu... eu fiquei tão preocupada com você! Filho... eu te amo muito e...
_Eu também te amo, mãe!
Akira emudeceu novamente, mas desta vez, foi para desabar em lágrimas.
_Me desculpe por tudo o que eu fiz você sofrer... prometo que não será mais assim!
_Eu... eu fico muito feliz por isso! Nossa... ainda não estou acreditando... Eu preciso te ver! Eu posso te buscar?
_Pode... eu estou com muitas saudades de você!
_Então... eu vou agora!
_Sim...
_Não saia daí, heim?
_Não vou fugir mais! Pode ficar tranquila...
_Então... me espere aí! Beijos.
Akira desligou o telefone e Yuri entregou o que segurava a Isabel.
_Ela está vindo pra cá...
_Foi o que eu pensei que ela faria.
_Eu estou me sentindo tão bem.
_Que bom!
_Vou arrumar minhas coisas!
_Quer ajuda?
_Não... está tudo bem. -disse Yuri indo para o quarto.
Isabel voltou para a cozinha, para estudar, mas não conseguia. Todos aqueles acontecimentos eram o suficiente para tirar sua concentração.
_Estou pronto. -disse Yuri entrando na cozinha, segurando uma pequena mala.
_É... chegou a hora. Como eu fico feliz por vocês...
_Eu também. Estou ansioso pra ver minha mãe... Depois de tanto tempo...
_E... você vai contar à ela?
Yuri olhou para os braços.
_Eu ainda estou com alguns curativos e o meu rosto não está tão lindo como deveria!
Isabel sorriu.
"E nem precisa! Eu te amo mesmo assim!"
_Só não sei como falar...
_Apenas diga a verdade.
_É.. chega de mentiras na minha vida!
A campainha da casa toca.
_Já?! -exclamou Isabel se levantando. -Será a Akira mesmo?
A garota correu para atender ao chamado.
_Isabel! -exclamou Akira lançando os braços ao pescoço de Isabel
Akira tinha os olhos vermelhos e estava prestes a se debulhar em lágrimas.
_Vem comigo... -murmurou Isabel conduzindo a patroa para dentro de sua casa.
Yuri estava parado, no meio da sala. Ao ver sua mãe, abriu um lindo sorriso.
_Meu filho! -exclamou Akira correndo ao encontro de Yuri.
O garoto abriu os braços e recebeu a mãe. Era um momento lindo, esperado por todos que, naquele momento, estavam completamente comovidos. A alegria que contagiou aquele lugar só poderia ser entendida nas sensações que cada um desfrutou naquele instante.
_Como eu esperei por esse momento! -disse Akira dando um beijo no filho. -Espere! O que é isso?
Akira reparou em alguns cortes no rosto de Yuri e os olhos, levemente roxos.
_A gente tem muita coisa pra conversar ainda...
_Tudo bem. Não me importa! Tudo o que eu queria já está aqui... comigo!
_Graças a Isabel!
Akira virou-se para a garota.
_Você tem sido um anjo em minha vida! Eu nem sei como te agradecer...
_Agradeça a Deus! Foi Ele quem fez tudo isso se tornar real hoje!
_Vale a pena perseverar... -murmurou Akira enxugando as lágrimas. -Ainda que tudo parecesse estar acabado, valeu a pena confiar num Deus que tudo pode!
Yuri meneou a cabeça, incrédulo.
_A hora dele vai chegar... -murmurou Isabel para Akira.
_Não duvido! Vamos, meu filho?
_Sim... -disse ele olhando para Isabel. -Eu... só queria te dizer obrigado! Não tenho palavras...
_Não precisa dizer nada. Eu posso entender...
Os dois se entreolharam e pareciam estar numa bolha flutuante, que os separava do mundo real.
_Eu acho que eu perdi muita coisa essa semana! -disse Akira sorrindo.
Os dois desviaram o olhar, acanhados.
_Bom... vamos! -exclamou Yuri saindo
_Vai entrando no carro, que eu já vou!
Akira aproximou-se de Isabel.
_Isa... preciso muito te contar uma coisa que está acontecendo... E agora que o Yuri voltou, então...
_O que aconteceu? -perguntou a garota preocupada.
_Não é nada sério... É só que... Eu... estou namorando!
_O que?! -exclamou Isabel espantada. -Com quem?
_Dr. Humberto...
_Seu patrão?!
_É... -murmurou Akira sorrindo. -Calma... não pense nada ruim de mim!
_Não estou pensando nada, é só que... é estranho!
_Eu sei... Preciso te explicar muita coisa ainda... Você ainda vai trabalhar na segunda?
_Claro que vou, Akira!
_Certo. A gente conversa sobre tudo na segunda, então.
Akira deu um demorado beijo na bochecha da garota e foi para o carro.
"Que momento lindo... Perfeito!"
Isabel voltou aos seus estudos, que só foi interrompido a tardinha, quando seus pais chegaram de São Paulo.
_Isa... você precisava ver a casa. É linda! -exclamou Elisa.
_Desta vez é sua mãe quem está falando.
_Ela é mais bonita ainda que a nossa antiga casa... Nem se compara!
_Que bom. -disse Isabel, voltando-se para os livros.
_E o Yuri? -perguntou João olhando em direção ao quarto. -Está dormindo?
_Não... ele já foi pra casa.
_Pra casa?! -espantou-se Elisa.
_A Akira veio buscá-lo.
_E como foi? -perguntou Elisa interessada.
_Foi lindo! A Akira esperou tanto por isso...
_Eu posso imaginar... -murmurou a mãe de Isa sorrindo.
_Agora... vamos ao que interessa! -disse João.
_O que? -perguntou a garota.
_Nós... já fechamos negócio com a casa. -anunciou o pai.
_Mas... já?!
_A gente já pode se mudar pra lá!
Isabel sentiu seu mundo desabar.
_Mudar? Agora?
_Não... filha! -disse Elisa sorrindo. -Semana que vem. Temos que arrumar tudo ainda!
_Nós temos mesmo que sair daqui?
_Isa... não vai começar tudo de novo!
_Não... tudo bem!
Isabel arrumou seu material e os levou para seu quarto.
"Senhor, ajuda-me a entender o que queres pra nós! Essa mudança será pior que a outra..."

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Capítulo 24

9 horas da manhã. Yuri voltou a dormir e Isabel aproveitou para ir comer alguma coisa na lanchonete. Como estava feliz em vê-lo bem... Como era bom ver que estava arrependido por tudo e que agora estava realmente se tornando uma nova pessoa.
"Senhor... muito obrigada!" -dizia Isa em seu coração, enquanto lágrimas rolavam em seu rosto. "As Tuas misericórdias, Senhor, realmente não têm fim! Como foste misericordioso com o Yuri... Te agradeço, Senhor! Te agradeço..."
_Isa? Está tudo bem?
_Mãe?! Tá fazendo o que aqui?
_Ver como você e o Yuri estão... -disse Elisa sentando-se numa das cadeiras. -Mas parece que...
_Não. Ele está bem! -disse Isabel sorrindo e enxugando as lágrimas. - Ele até já acordou... já conversamos... Eu estava chorando de alegria. Sabe, Deus é tão bom, mãe!
_Sim... muito!
_O Yuri está mudando, está arrependido.
_Ah... está tomando jeito agora?
_Parece... -disse a garota sorrindo. -Ele se arrepende pelo que fez comigo e está com saudades da Akira...
_Hum... isso é bom!
_É ótimo! Pena que não consigo falar com a Akira... Ela não ligou?
_Não. Nem sombra dela.
_Estou começando a ficar preocupada. Será que aconteceu alguma coisa com ela, mãe?
_Bom.. isso eu não sei. Mas deixa que Deus está cuidando dela. Acredito que Ele não deixaria que acontecesse alguma coisa sem que antes ela visse o filho...
_É... verdade.
_O Yuri está dormindo?
_Sim... Por isso aproveitei pra comer alguma coisa.
_Bom... eu preciso ir pro Buffet. Apesar de a Carina estar tomando conta de tudo sozinha, preciso ajudá-la... Sábado vamos a São Paulo ver a casa e o salão do novo Buffet!
_Sábado?
_Sim. Você vai fazer alguma coisa no sábado?
_Não. É que eu ainda não me acostumei com a idéia de que nós vamos nos mudar. Eu nasci aqui, mãe... cresci aqui! É tão estranho ter que mudar de cidade...
_Logo você se acostuma. E não acho que será tão ruim assim...
_Por que?
_Seu pai encontrou uma casa bem pertinho da casa da tia Branca...
_Sério?
_Aham. Lembra que você e a Aline queriam morar juntas quando eram pequenas?
_Sim... nós queríamos ser irmãs! Mas agora é outra época, mãe... Não que eu não goste da Aline, você sabe que somos como unha e carne, mas... Sair daqui...
_Isa... você não queria sair da velha casa e tanta coisa aconteceu quando viemos pra essa. A gente nunca sabe o que Deus tem reservado pra nós...
_Não havia pensado nisso.
_Então... comece a pensar! Logo, logo estaremos de mudança!
Isabel sorriu, mas não estava tão animada em relação a mudança.
_Agora... -disse Elisa se levantando. -Preciso mesmo ir!
_Espere!
_O que foi?
_Nós temos um problema...
_Que tipo de problema?
_Yuri.
_Você não disse que ele estava bem?
_Sim, está. E esse é o problema. O médico disse que ele provavelmente teria alta hoje, ou seja... ele vai pra casa. Mas ele não pode ir pra casa dele porque não tem ninguém lá...
_Você está sugerindo... ?
_Ele poderia ficar no quarto que era da vovó!
_Isabel!
_É só até a Akira voltar... Ele precisa de cuidados, mãe!
_É exatamente por isso!
_Eu vou cuidar dele...
_Mas não é tão fácil quanto você imagina, Isa.
_Eu vou tentar. Por favor, mãe!
Elisa colocou uma mão na cintura e encarou a filha.
_Eu vou falar com o seu pai.
_Obrigada! -exclamou Isabel abraçando a mãe.
_Mas isso não é garantia de nada!
_Tudo bem...
_Eu volto a tarde, então.
_Ok.
Elisa deu um beijo na filha e foi embora.
"Senhor, está em Tuas mãos."
Isabel estava voltando para o quarto, quando viu alguns policiais no corredor. Provavelmente estavam ali para pegar algumas informações de Yuri sobre os agressores.
_Oi! -exclamou Isabel entrando no quarto, percebendo que Yuri estava acordado.
O garoto estava numa posição "mais sentando que deitado" e havia uma bandeja, com um suporte embaixo, que continha seu café da manhã.
_Que bom que está comendo...
_Depois desse café, eu definitivamente quero voltar pra casa! -exclamou Yuri.
_Mas você nem experimentou tudo!
_Meu paladar não suportaria!
Isabel aproximou-se.
_Olha só... tem gelatina! Eu pensei que só davam isso nos filmes!
_Eu não gosto de gelatina...
_Sério?
_Olha só pra isso! Se mexe sozinho... Isso tem praticamente vida própria! Você não pode comer uma coisa que pode sair andando por aí.
Isabel sorriu.
_Você é esquisito!
_Se você gosta de gelatina, você sim é esquisita!
_Você não vai comer mais, então?
_Não, não...
_Posso tirar a bandeja?
_Sim, obrigado.
Enquanto Isabel tirava a bandeja e a colocava numa mesinha ao lado da cama, alguns policiais entraram no quarto.
_Bom dia. Aqui é o quarto do Yuri?
_Sim. -respondeu Isabel
No mesmo instante, Yuri começou a ter um ataque. Parecia ser um ataque de asma.
_Yuri?!
Parecia piorar cada vez mais. Isabel abriu espaço entre os policiais e, desesperada, chamou uma enfermeira.
_Saiam! -exclamou a enfermeira aos policiais. -Ele precisa de espaço!
Os policiais saíram do quarto.
_Preciso que você saia também. -disse a enfermeira para Isabel.
_Mas eu...
_Por favor! -disse a enfermeira apontando para a porta.
Isabel acompanhou os policias.
_Acho melhor voltarmos amanhã. -disse um policial.
Os outros concordaram e foram embora. Então, a enfermeira saiu.
_Como ele está? -perguntou Isabel desesperada.
_Bem. Aparentemente, ele não tinha nada.
_Como nada? Ele estava mal...
_Mas agora ele está ótimo! -disse a mulher impaciente. -Com licença, tenho coisas realmente importantes pra fazer!
_Mas...
A garota estava confusa. Como poderia estar mal num instante e depois não ter nada?
_Você está bem? -perguntou Isabel se aproximando.
_Sim... -murmurou o garoto sem encará-la.
_Eu fiquei preocupada.
_Nâo foi nada.
_Os policiais foram embora. -disse Isabel com tristeza.
Yuri soltou um suspiro de alívio.
_Ei. O que foi isso?
_Isso o que?
_Ah.. aquela cena toda foi por causa dos policiais. Eu não acredito que você fez isso!
_E o que você queria que eu fizesse? Eles iam me prender!
_Yuri... eles não podem te prender! Você está numa cama de hospital. E, eles não vieram checar o seu passado, vieram coletar informações sobre os agressores.
_E você acha que os meus agressores não têm nada a ver com o meu passado?
_Bem...
_E você acha que eles não vão encontrar meus antecedentes quando souberem mais de mim?
_Antecedentes?
Yuri ficou calado por uns instantes.
_Você sabe que eu não andava por aí fazendo boas ações... -murmurou o garoto. -Eu... eu fiz muitas coisas erradas, que você nem tem noção!
Isabel prestava atenção no garoto, mas não conseguia dizer nada.
_Eu fazia parte de uma gangue. Nós fazíamos tudo o que "dava na telha"! Nós roubamos, nós agredimos pessoas inocentes...
Isabel estava chocada.
_Mas... eu não matei ninguém, não! -disparou Yuri, percebendo a fisionomia da garota. -Bom... não eu.
_Eu... não sabia...
_Mas já deve ter imaginado. Quando se está drogado, você faz coisas...
_Por que aqueles homens te bateram?
_A Renata me denunciou pra eles.
_Como assim?
_Quando eu fugi de casa, fui pra casa da Renata.
_Ah!
_No começo era muito bom, mas ela não era tão legal como parecia. E então, há algumas semanas, nós brigamos. Eu queria voltar pra casa, mas... eu não conseguia. Não tive coragem. Então, eu fui pra casa de um amigo. A Renata descobriu que eu estava lá e ficou com raiva. Então, inventou uma história para os outros caras da gangue e eles vieram atrás de mim. Me pegaram e me colocaram no carro. Quem estava dirigindo era a Renata.
Isabel deu um suspiro. Como Renata foi capaz de fazer uma coisa dessas com Yuri?
"Bem que eu nunca gostei dessa garota!"
_O resto da história, acho que você já sabe.
_Uau.
_Como eu vou contar isso aos policiais sem que eles me indiciem por alguma coisa?
_É... só por Deus.
_Deus? Você acredita mesmo?
_Se não fosse por Ele, você não estaria aqui.
_O que você quer dizer?
_Quando eu vi você sendo agredido, bom... não sabia que era você. Eu ia fugir, mas Deus me fez ir até lá.
_Ah... fala sério.
_É sério, Yuri! Aqueles homens fugiram! Não havia ninguém mais comigo e eles me viram e fugiram. Foi Deus!
_Se você diz... -murmurou o garoto incrédulo.
_Olá! -disse o médico entrando no quarto. -Vejo que está bem hoje.
_Sim... já posso ir pra casa?
_Vamos descobrir isso agora! Você pode nos dar licença um momento?
_Claro. -disse Isabel saindo.
Alguns minutos depois o médico saiu.
_Ele já pode sair daqui a pouco. Só vamos trocar os curativos e ele está pronto pra ir pra casa.
_Que ótimo!
_Mas ele vai precisar de uma cadeira de rodas. Ele não pode forçar nada por alguns dias. Ele vai precisar de bastante cuidado.
_Tudo bem...
_Pelo visto, você será a enfermeira particular!
Isabel sorriu.
_Melhor você ir ver como a enfermeira faz os curativos nele, então.
A garota entrou no quarto e observou atentamente o trabalho da enfermeira.
_Prontinho! -disse ela. -Agora pode sair desse lugar!
_Não sem antes trocar de roupa!- exclamou Yuri.
_Você não tem roupas aqui! -disse a enfermeira.
Yuri olhou com desespero para Isabel.
_Eu... eu vou ligar pra minha mãe! -anunciou Isabel saindo.
A garota estava ansiosa. Será que o pai havia deixado que Yuri ficasse em sua casa?
_Alô, mãe? O Yuri já está de alta.
_Mas, já?
_Sim. Você já pode vir?
_Eu preciso ligar pro seu pai. Ele disse que ia buscar vocês!
_Então, ele deixou!
_Um pouco relutante, mas deixou.
_Que bom... Mãe, temos mais um problema! Aliás, dois!
_O que aconteceu agora?
_Precisamos de roupas pro Yuri...
_Roupas? Bom, isso não é difícil.
_E... uma cadeira de rodas!
_Aonde vamos encontrar uma cadeira de rodas, Isabel?
_Eu não sei. O Yuri não pode fazer esforço.
_Está bem... vou me virar por aqui!
_Obrigada, mãe!
_O que eu não faço por você, hein?
_Deus lhe pague! -exclamou a garota.
_É... só Ele mesmo!
Isabel voltou para o quarto.
_Minha mãe vai trazer o que você precisa!
_Isabel... como é que... eu vou pra casa? Eu ainda não consigo me virar sozinho... e minha mãe não está lá...
_Mas você não vai pra sua casa. Você vai ficar na minha!
Yuri surpreendeu-se.
_Sua casa?!
_Bom... não é igual a sua, mas acho que dá pra aguentar.
_Eu não acredito que você está fazendo isso por mim! Eu me sinto até sem jeito... Você é uma pessoa realmente especial.
Isabel sorriu e desviou o olhar. Aquilo sim a deixava sem jeito.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Capítulo 23

_Senhor, obrigada! -exclamou Isabel se ajoelhando e abraçou o garoto.
Yuri olhou para Isabel e desmaiou.
_Yuri?! Ah, meu Deus! E agora?
Isabel olhou para os lados, procurando alguém que pudesse ajudá-la. Yuri estava muito, muito machucado; seu rosto estava praticamente desfigurado e os golpes que havia tomado foram o que provavelmente o fizeram desmaiar.
_Eu preciso tirar você daqui... -murmurou Isabel olhando para o garoto com ternura.
Após alguns minutos tentando tirar Yuri daquele lugar, inutilmente, resolveu ir até a rua onde havia acontecido o acidente que tinha impedido sua passagem para o ponto de ônibus. Ali havia muitos bombeiros que poderiam ajudá-la.
Isabel levantou-se e foi se afastando do garoto, mas sentiu algo segurar em sua perna.
_Não... -murmurou Yuri com dificuldade. -Não vai...
_Eu vou buscar ajuda.
Isabel viu uma lágrima correr dos olhos de Yuri; a dor devia ser muito grande.
_Eu volto já. -disse ela se abaixando. -Não vou te abandonar!
Yuri soltou-a lentamente e Isabel correu até a rua do acidente. Não havia mais carros de resgate, apenas duas viaturas policiais.
_Por favor! -exclamou Isabel se aproximando rapidamente. -Eu preciso de ajuda! Um amigo meu foi agredido... Ele está naquela rua!
Dois policiais acompanharam Isabel até o local onde Yuri estava. A garota contou a um deles o que havia acontecido, enquanto um outro chamava o resgate. Logo, Yuri e Isabel estavam a caminho do hospital e não demorou para que o garoto fosse atendido e medicado.
_Ele está fora de perigo.. -disse um médico a Isabel. - Ele fraturou uma costela, tem alguns ferimentos e hematomas pelo corpo, mas não é nada para se desesperar.
_Então... está tudo bem? -perguntou a garota, ainda incrédula por ter visto o estado em que Yuri estava.
_Está tudo bem. Não é nada grave. Daqui a 2 dias ele provavelmente terá alta.
_Que bom!
_Mas precisará de descanso para se recuperar.
_Tudo bem. Pelo menos não aconteceu nada tão grave...
_Ele teve muita sorte.
_Sim... -murmurou Isabel contente. -Eu posso vê-lo?
_Pode, mas ele está dormindo, por causa dos medicamentos...
_Não tem problema!
O médico acompanhou Isabel até o quarto onde o garoto estava.
_Que bom que você está bem... -murmurou Isabel, sentada ao lado da cama em que Yuri estava. -Deus é fiel... trouxe você de volta pra nós.
Isabel lembrou-se que tinha de avisar a Akira sobre isso e se lembrou também que seus pais não sabiam de seu paradeiro, até então. Já passava da meia noite e Isabel estivera tão preocupada com Yuri que se esqueceu dos pais.
_Alô?
_Mãe?
_Ah... graças a Deus! Isabel, onde você está?
_No hospital...
_Hospital?! -exclamou Elisa com desespero.
_Calma... eu estou bem!
Isabel contou a mãe toda a história e pediu para passar a noite ali no hospital, mas, meia hora depois, João e Elisa chegaram ao hospital para levá-la pra casa. Relutante, Isabel voltou para casa.
A noite foi péssima e logo que amanheceu, Isabel tentou ligar para Akira mas, sem sucesso. Então, resolveu ir ao hospital para ficar com Yuri.
_Você quer um pouco de café? -ofereceu uma enfermeira, entrando no quarto com uma bandeja contendo alguns copinhos descartáveis.
_Gostaria muito.. -murmurou Isabel, com desânimo.
_Você passou a noite aqui?
_Não... -disse a garota, bebericando o café. -Meus pais não deixaram.
_Ah... entendo. Os pais geralmente têm ciúmes do namorado da filha, não é mesmo?
Isabel sorriu.
_Ele não é meu namorado...
A enfermeira espantou-se.
_Como não?! Você parece... Ah, ele não sabe, não é mesmo?
Isabel sorriu novamente.
_Ele é apenas filho da minha patroa e ela está viajando no momento, por isso estou aqui.
_Hum... entendo. -disse a enfermeira sorrindo. -Se precisar de alguma coisa, pode me chamar, tá?
_Tudo bem.
O dia foi passando bem devagar. Ficar ali com Yuri não parecia mais uma idéia tão legal. Isabel não conseguia encontrar uma posição confortável na cadeira e o cheiro de medicamentos já estava lhe causando náuseas.
_Preciso de ar! - exclamou Isabel se levantando e saindo decidida daquele quarto.
Após dar uma volta pelo hospital e se sentindo um pouco mais descansada, Isabel resolveu voltar para o quarto.
_Isabel! -exclamou uma voz. -Até que enfim te encontrei!
_Juliana?! O que você está fazendo aqui?
_Eu fui na sua casa e sua mãe disse que você estava aqui. Sinto muito pelo Yuri...
_Agora ele já está bem.
_E você? Não está cansada de ficar aqui não?
A garota sorriu.
_Por isso estava dando uma volta...
_Será que eu posso vê-lo?
_Eu não sei.
As duas se dirigiram a portaria e após a apresentação de alguns documentos, Juliana pôde acompanhar Isabel.
_Uau! -exclamou Juliana ao ver o estado de Yuri. -Se você continuar apaixonada por ele, mesmo o vendo assim, você realmente o ama!
_Juli... não brinca!
_Desculpe... mas ele tá horrível!
_Foram os golpes...
_Você viu tudo?
_Vi... foi horrível!
_Me conte!
As duas se sentaram e Isabel contou a amiga tudo o que havia visto.
_Deus fez você ir até lá?
_É... foi.
_Você foi corajosa... eu não iria.
_Corajosa?! Eu estava morrendo de medo! Mas não tive muita escolha. Fui impulsionada. E não aconteceu nada comigo... Se não fosse assim, o Yuri poderia ter morrido. Deus sabe o que faz...
_É... -murmurou Juliana.
_Por falar nisso, como foi ontem com seus pais?
_Terrível! Vamos na lanchonete, comer alguma coisa, enquanto falamos sobre isso?
_Se você prefere...
_Não... é que estou com desejo de comer pão de queijo!
As duas amigas sorriram e foram à lanchonete. Após Isabel pedir apenas um sanduíche e Juliana se munir de pão de queijo o suficiente para alimentar um batalhão, Juliana começou a contar os fatos.
_Depois que minha mãe nos ouviu ao telefone, eu tive que contar tudo a ela. Ela não brigou comigo na hora; disse que esperaríamos o meu pai e ele diria o que aconteceria comigo... Meu pai ficou muito abalado. Eu não esperava a reação que ele teve...
_Então... seus pais não brigaram com você?
_Eles estavam tão abalados que, nem conseguiram brigar muito!
_Então... está tudo bem?
_Não... Meu pai disse que já que estive bem "grandinha" pra tomar uma decisão e fazer o que eu não devia, então não preciso mais viver as custas dele. Eu... vou ter que trabalhar pra me sustentar, acredita?
_Trabalhar?
_É... meu pai disse que paga só comida... o resto... Ele cancelou meus cartões de crédito, Isa!
_Juli... o que está acontecendo é consequencia dos seus erros...
_É... eu sei. Mas, trabalhar, Isa?
_Pior seria se eles tivessem te expulsado, como os pais da Carina fizeram.
_É... -murmurou Juliana pensativa. -Pensando por esse lado, eu tive sorte, não é mesmo?
_Eu orei muito por você, Juli. E... trabalhar não é tão ruim assim. Você se lembra quando tive que trabalhar porque meu pai perdeu o emprego?
_Lembro. -disse Juliana sorrindo.
_Eu achava o fim do mundo ter que trabalhar, e ainda mais de empregada. No fim, gostei tanto que não quero deixar a Akira!
_É... já estava me esquecendo que você vai se mudar... Puxa! Não vou conseguir ficar longe de você, Isa! Nós crescemos juntas!
_Não vamos ficar tão longe também! São Paulo fica a uma hora e meia daqui!
_Mas pra quem não tem mais dinheiro...
As duas amigas se olharam e sorriram.
Uma hora depois, Juliana foi embora. Isabel ainda estava decidida a ficar no hospital, mas Elisa foi buscá-la mais uma vez.
_Você precisa descansar, Isa! -disse Elisa, tentando convencer a filha. -Já são nove horas da noite...
_Mas, mãe... Não posso deixá-lo aqui sozinho!
_Isabel... ele está no hospital. Olha só quantos enfermeiros estão aqui para cuidar dele!
_E de outros pacientes também!
_Tudo bem. Já vi que você está decidida! Mas... que tal você ir em casa, tomar um banho, comer alguma coisa e depois eu te trago de volta?
_Me traz mesmo?
_Sim... prometo! Sei que você não vai me deixar em paz se não te trouxer...
E assim foi feito. Isabel foi para casa e às 11:30 estava de volta ao hospital.
_Qualquer coisa, me ligue, ouviu?
_Tudo bem, mãe!
Isabel, então, retornou ao quarto de Yuri, que ainda dormia. No hospital estava um silêncio extremo. Isabel estava muito cansada e com a falta do que fazer, acabou adormecendo debruçada na ponta do colchão da cama de Yuri.
Ao sentir algo tocar em seu braço, Isabel levantou a cabeça assustada.
_Calma... -murmurou Yuri. -Sou eu.
_Você acordou... -murmurou Isabel contente.
_E você dormiu.
_É... -disse a garota limpando os olhos.
_Quanto tempo eu dormi? -perguntou o garoto confuso.
_Quase dois dias...
_Puxa! Nem as drogas que já usei causaram um efeito desses em mim!
_Você estava mal, Yuri.
O garoto observou seus braços, que estavam cheios de curativos e tentou levantar-se.
_Ai!
_Não, Yuri! Você não pode, ainda!
_O que eu tenho?
_Você fraturou uma costela.
_Por isso dói tanto...
_Fique deitado... -disse Isabel arrumando o garoto na cama.
_Há quanto tempo você está aqui, Isabel?
_Nem sei. -disse a garota sorrindo.
_E a minha mãe?
_Ela está viajando. Tentei ligar pra ela, mas ninguém responde...
_Sinto muito a falta dela.
Isabel sorriu.
_A última vez que a vi a tratei tão mal...
_Mas ela já te perdoou.
_E você?
_Eu, o que?
_Me perdoa?
A garota surpreendeu-se com a pergunta.
_É claro.
_Eu nunca poderia imaginar que quem estaria comigo, num momento como esse, seria você!
_É... nem eu! -disse Isabel sorrindo.
_Se eu pudesse voltar atrás e não fazer as besteiras que fiz com você... eu te tratei tão mal...
_Já passou, Yuri. Vamos esquecer e viver daqui pra frente!
_Isabel...
_Sim...?
_Muito obrigado! Você salvou minha vida! Nem sei como te agradecer pelo que você está fazendo por mim...
_Não precisa agradecer, eu faço porque...
Isabel parou de falar, de repente.
_Porque...?
_Porque... sua mãe tem sido muito boa comigo! -disparou a garota. - É isso!
Yuri sorriu, mas no fundo sabia que essa não era a resposta certa.